quinta-feira, 20 de março de 2008

Últimos dias

Já não é a primeira vez que me acontece mas, mais uma vez, os últimos dias de estadia na sonda são de pouco trabalho, o que aumenta, ainda mais, a vontade de regressar a casa. Depois de alguns dias de intenso trabalho, com perfuração, intercalada por uma operação de coring, em que se recupera uma amostra “intacta” de alguns metros de rocha e que dá mais indicações sobre as características das formações, chega agora o momento de descanso para nós, na unidade, enquanto se aguarda pelos logs que estão a ser efectuados (wireline logging) e pela próxima fase de perfuração.

Neste interregno, está prevista a minha crew change, pelo que conto ir para casa nos próximos dias. A única coisa de que dependo, uma vez que já tenho a confirmação de que o colega que me virá substituir estará a caminho amanhã, é do visto no passaporte, pois, segundo informações da base, os Serviços tiveram problemas informáticos e ainda não deram andamento ao meu processo. Pelos vistos, a herança deixada pelos portugueses, inclui a burocracia; ao mesmo tempo que em Portugal se começa agora a inverter a tendência de burocratização em alguns sectores, por aqui ainda vigora o “(des)funcionalismo público”. O que vale é que esta será a última vez (assim espero…) que estarei dependente de vistos, aqui em Angola, pois este já será um visto de trabalho, válido por um ano e renovável.

De qualquer forma, fazendo um balanço deste mês, penso que evoluí tecnicamente, em alguns aspectos, uma vez que encontrei equipamentos novos e tive de aprender a utilizá-los, ao mesmo tempo que vi e acompanhei operações diferentes, como o coring. Por outro lado, trabalhei em condições mais difíceis do que estava habituado, o que influenciou um pouco o meu estado de espírito, embora não o suficiente para me fazer desanimar em algum momento. A minha força de vontade é superior às dificuldades e não tremo perante a dureza do trabalho que escolhi. Também tenho um motivo forte para ir embora: o evento que se aproxima a passos largos deixa-me ansioso e talvez tenha sido isso que me fez sentir um pouco mais de saudade e tensão. Saber que os últimos pormenores do casamento têm de ser tratados e eu só podendo dar opiniões e não podendo fazer muito mais, tornaram estas semanas mais complicadas. No entanto, tenho tido a felicidade de ter comunicação e conseguir acompanhar tudo. Além disso, sei que os assuntos estão entregues nas melhores mãos e que tudo vai suceder como desejamos.
Update: Logo no dia em que escrevo no blog sobre os meus últimos dias, recebo a informação de que afinal os Serviços de Migração e Estrangeiros não trataram ainda (?) do meu visto e que vou ter que ficar até dia 28 a bordo. Mas vou actualizando por aqui a situação...

sexta-feira, 7 de março de 2008

Perfuração e café

Estes últimos dias foram de algum trabalho, o que é bom, para variar. Este pensamento pode parecer estranho mas a verdade é que o tempo passa mais depressa quando há algo para fazer.
Neste poço que estão a furar, a quantidade de amostras que temos que preparar é bastante. No entanto, o intervalo de amostragem é alargado e, uma vez que não furam com grande velocidade, não é necessário ”correr” muito… Também tenho de reconhecer que a ajuda do sample catcher é preciosa e permite que me possa dedicar mais a ajudar o Data Engineer, verificando parâmetros, preparando relatórios e monitorizando o sistema de gás.
Esta imagem mostra a “lama”, com os cuttings, a chegar aos shale shakers (lembra chocolate, mas não é!). A este local dá-se o curioso nome de possum belly e é aqui que são colocados os equipamentos que nos permitem recolher dados sobre os níveis de hidrocarbonetos atravessados.

Numa unidade de Mudlogging com portugueses e/ou italianos, não pode faltar o café. Para o preparar, é necessário alguma criatividade e o pequeno fogão eléctrico em que se secam as amostras é o local apropriado para isso.

Desta vez, fui eu quem trouxe a cafeteria (oferta da Tia Alice – Obrigado, tia!), pois já sei que todos querem café mas todos esperam que seja o outro a lembrar-se!

Ao fim de um dia de perfuração, com amostras para recolher e sistema de gás para controlar, a sujidade é incontornável, ainda para mais neste caso em que a “lama” é à base de óleo. O calor que faz, principalmente nos shale shakers, também faz os seus estragos.


Nada melhor, depois de 12 horas num vai-vem constante, do que um banho morno (sim, já temos água quente…) para acalmar o corpo e um sono tranquilo para recuperar forças. Nem o barulho ou o movimento da sonda me roubam esse prazer de adormecer sentindo que valeu a pena mais um dia longe dos que amo. E que também é menos um para voltar a estar perto deles…

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Atlântico Sul

Neste novo turno, estou de regresso a Angola, embora desta vez em offshore, a 150km da costa (província do Soyo) e a 370km de Luanda, num local em que a profundidade de água é de cerca de 1300m, em pleno Atlântico Sul.
A bordo do semi-submersível M.G. Hulme Jr., a vida corre sem muito que fazer, uma vez que as operações não nos dizem respeito, neste momento. Dentro de alguns dias, será retomada a furação e aí começará o trabalho a sério.

Esta paragem que decorre desde o dia em que cheguei, foi benéfica para mim, uma vez que me permite inteirar-me sobre a sonda, a unidade e todos os procedimentos a bordo.
As condições de vida não são exemplares, embora também não me possa queixar: a comida é boa, a lavandaria funciona bem e o barulho no quarto, que fica localizado fora da área normal das acomodações, até nem é muito, permitindo um bom descanso. Os maiores problemas, do meu ponto de vista, são as casas-de-banho, incluindo os chuveiros, pois não existe água quente (como é evidente, o calor que aqui faz, não nos impede de tomar banho com água fria), e o facto de as comunicações não serem as ideais, uma vez que há apenas um computador partilhado ligado à internet e que está sempre ocupado. Dentro de alguns dias, julgo que teremos internet na unidade mas, para já, não me resta outra alternativa senão tentar a sorte… Em todo o caso, na unidade existe um telefone, o que, pelo menos, permite ligar à família algumas vezes por semana.

Antes de vir para a sonda, ainda passei um dia em Luanda, onde tive a oportunidade de passear um pouco. Ainda não foi desta vez que visitei os pontos mais turísticos, mas voltei a confirmar a sensação que tinha tido na anterior viagem: a cidade, e o país, em geral, tem muito para crescer e evoluir, quer ao nível das infraestruturas, quer ao nível da consciência da população. O trânsito é impossível de suportar, as estradas, se é que se pode chamar isso a algumas delas, encontram-se num estado deplorável, o lixo acumula-se em frente às pobres casas dos bairros caoticamente organizados, as pessoas deambulam sem ordem nem sentido aparente, num país com tantos recursos e onde a miséria continua a conviver paredes-meias com o consumismo e a ostentação. Apesar disto, as pessoas, duma forma geral, parecem viver numa aparente tranquilidade, que eu diria própria de uma África que procura o seu rumo, sem perder a alegria de viver.
A verdade é que começo a simpatizar com esta gente, de modos tão característicos. Não que alguma vez tivesse tido algum tipo de antipatia ou desconsideração, mas, quanto mais conheço as pessoas, melhor entendo a sua forma de vida e a luta que travam para se equipararem ao chamado “mundo civilizado”. Talvez os objectivos e os métodos de cada um não sejam aqueles que poderíamos esperar mas há que reconhecer que a sua capacidade de sobrevivência impressiona.
A Guerra Civil que assolou este país pode justificar muita coisa mas, a bem da verdade, os anos vão passando e as mudanças radicais que são necessárias continuam a processar-se lentamente, por incompetência, incapacidade ou irresponsabilidade. Segundo sei, Angola é o país de África com o crecimento económico mais acelerado, nos últimos anos, embora isso não seja visível ao nível das condições de vida da generalidade da população. Desejo, por mim, que tenciono vir para cá durante algum tempo mais, e pelas pessoas que sonham com uma Angola evoluída, que os investimentos sejam aplicados de forma correcta e que se criem as condições para um crescimento sustentado e sustentável.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Atrasos

A minha próxima viagem vai ser, como previsto, para Angola. Antes de ter vindo da última "missão" disseram que talvez tivesse de ir no dia 1 de Fevereiro para esta. No entanto, isso não se concretizou, e ainda bem, porque com tanto que tinha para fazer em casa, apenas 5 dias não davam para nada... A viagem foi, então, adiada para dia 12, ou seja, amanhã. Mais uma vez, essa data foi descartada alguns dias depois. Dia 14 era a data real, com voo marcado e tudo organizado. Hoje de manhã, novo mail dá a indicação que problemas com o visto obrigam a novo adiamento, desta feita para o dia 18. Veremos o que dá e se será mesmo esta a data correcta...
Todos estes adiamentos e, em bastantes situações, falta de organização e de timming, deixam-me descontente e tornam a minha vida uma roda viva, pois nunca sei quando vou ou quando venho, o que posso fazer enquanto estou em casa, para quando organizar algo... Enfim, estou já habituado mas causa sempre transtorno e obriga-me a pensar bem no dia de hoje para não deixar para amanhã algo que depois não poderei fazer...
Neste momento, são as preparações para o casamento que nos preocupam. Tivemos que fazer um esforço grande para entregar os convites todos nestas semanas (os que faltavam, claro) e para tratar de todos os assuntos que não poderiam ficar atrasados. Como sempre, conseguimos resolver praticamente tudo, sendo que estes dias extra em casa nos permitem terminar algumas coisas.
Tento sempre tirar partido de todas as situações e, estes adiamentos, apesar de não ajudarem a ter uma vida estável, proporcionam a oportunidade de resolver assuntos que de outra forma, iria ter que delegar. Além disso, vou passar o Dia dos Namorados em casa, o que é óptimo!!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Dia de viagem

Chegaram ao fim mais 28 dias longe de casa. É chegado o momento de voltar. E isso acontece esta tarde, espero eu... Estou neste momento à espera do helicóptero que nos vai transportar até Ravenna. Dali vou até Milão ou Bolonha, onde passarei esta noite. Amanhã por esta hora, espero estar a viajar para Lisboa...
Estes últimos dias foram de descanso, felizmente, depois de um fim-de-semana bastante atribulado e com muito que fazer...
Agora que volto a casa, reconheço que este não foi um turno fácil, apesar de os dias complicados não terem sido muitos. De qualquer forma, é mais cansativo estar em offshore do que em terra. O facto de estarmos confinados a um espaço tão curto, limita-nos e obriga-nos a estarmos focados, o que se revela uma tarefa árdua. Admito, no entanto, que a experiência não me desagradou de todo. Apesar de não ser total, a comunicação com o mundo exterior é possível, o que alegra um pouco os nossos dias.
Como já tenho conhecimento do próximo destino, que será numa plataforma offshore em Angola, sinto-me preparado para o desafio, depois de ter tido a oportunidade de descobrir como é a vida apenas com o mar no horizonte.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Vida de plataforma

A vida a bordo de uma plataforma como esta em que me encontro é um pouco diferente daquela que tinha nas sondas em terra. Primeiro porque a vista é completamente distinta e apenas o mar se encontra à nossa volta; depois, porque o espaço é limitado, o que faz com que estejamos sempre em contacto com tudo o que se passa no Rig Floor, ou seja, sabemos sempre quais são as operações a decorrer, mesmo que estejamos nas acomodações. Apenas no quarto não contactamos visualmente com os acontecimentos, o que é natural. Os dias decorrem calmamente, uns com trabalho a mais, compensando aqueles em que a espera faz o turno parecer ainda mais longo…
Um dos colegas que trabalha comigo tirou umas fotos nos primeiros dias (eu não trouxe a máquina porque não sabia se me deixavam trazê-la a bordo…) e aproveito para vos mostrar um pouco do local em que me encontro. A primeira apresenta uma visão da plataforma, vista do barco que nos trouxe. A segunda mostra a forma peculiar como somos içados a bordo. Na última, podemos ver a unidade a ser transportada para o seu destino final a bordo. Ou seja, nestas condições, um dos trabalhos fundamentais por aqui é o de gruísta, uma vez que tudo tem de ser movimentado num espaço curto e só a utilização de várias gruas o permite.


Depois de um pouco mais de duas semanas, começo já a pensar no regresso, até porque tenho novidades à espera em casa. Aliás, a grande novidade é mesmo a casa, a NOVA casa. Estou já a contar os segundos para fazer as mudanças e instalar-me no espaço que eu e a minha “cara-metade” escolhemos para passar os próximos anos das nossas vidas! Mas já estou a divagar…

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

No Adriático

Neste momento encontro-me a bordo do Ocean King, no Mar Adriático, tal como havia esperado. A única diferença para aquilo que anunciara é que estou em águas territoriais croatas e não italianas. Além disso, a viagem foi no dia 27, depois de ter passado o Natal em casa. Saí do Porto à uma da manhã para poder embarcar no avião com destino a Bologna às 08:00. O dia foi, portanto, longo, tanto que ainda tive de ir de comboio mais duas horas até ao próximo destino, Ravenna, uma cidade costeira italiana, onde se situa a base operacional para este trabalho.
Na manhã seguinte, dirigi-me, com os restantes colegas, para a base, para podermos embarcar para a plataforma. A viagem foi efectuada de barco e durou cerca de duas horas. O meu estômago não se portou lá muito bem mas, felizmente, não ocorreu nenhuma descarga ao mar.
A primeira tarde e a manhã seguinte foram de adaptação, uma vez que a unidade ainda se encontrava no navio, à espera de ser colocada no seu local. Assim, foi possível, com tempo, conhecer os “cantos à casa” e perceber como funcionava tudo, desde as refeições à lavandaria. Os dias seguintes foram mais ocupados, com a montagem de todos os sensores e colocação da unidade em estado operacional.
As primeiras noites foram um pouco complicadas: além de ter pouco tempo para dormir, também não estava ainda ambientado ao constante barulho e tremideira. Agora já durmo um pouco melhor, embora não seja tanto quanto deveria.
A entrada no novo ano foi brindada, não com champagne, mas sim com frio… Enquanto toda a tripulação festejava na cantina (toda a sonda estava deserta!!!), a nossa equipa estava à porta da unidade, a levar com o vento gelado vindo de Norte, apenas fazendo um pequeno intervalo no trabalho para ficar a ver o fogo de artifício que, a mais de 70km de distância, era possível ver na costa da Croácia. Devo dizer que, apesar de não ser o Reveillon que esperava, foi especial à sua própria maneira! Já agora, aqui ficam os meus votos de um 2008 em grande para todos!!
Neste momento, o trabalho estabilizou e posso dizer que já estou a ficar familiarizado e adaptado a esta vida no mar. As condições não são perfeitas mas também nunca esperei um cruzeiro de 5 estrelas…